Debate 6: As Formas de Combate a Alienação e a Desvalorização dos Professores

AS FORMAS DE COMBATE À ALIENAÇÃO E À DESVALORIZAÇÃO DOS PROFESSORES

Antonio Rodrigues Belon (UFMS)[i]

Introdução

O objetivo deste trabalho é tratar da situação dos professores na sociedade capitalista, levando em conta os desafios, as obrigações, os limites e as perspectivas, em cumprimento ao proposto na temática do “II Seminário de Estudos Críticos sobre Educação”.

A totalidade constituída pelos termos educação, alienação e desvalorização dos professores, um dos eixos temáticos do evento, encaminha a questão para uma abordagem tendente a evocar os significados basilares da palavra crítica.

1. A alienação dos professores

O estranhamento na relação com o ensino e a alienação de si na duplicação do caráter da alienação do professor (COSTA, 2009, p. 68) é ponto de partida na abordagem da alienação dos professores.

No exercício do trabalho docente as características de sua alienação configuram-se claramente:

1.1. Exterioridade

A primeira é a exterioridade –o professor não pode ensinar o que quiser, como quiser, na ordem que achar a mais indicada para cada nível e modalidade de ensino, aplicando a avaliação do rendimento dos alunos da maneira que achar mais conveniente segundo seus conhecimentos técnicos, mas ensinar de acordo com imposição (obrigações/limites) de políticas para a educação que contrariam a própria natureza da atividade de ensino (COSTA, 2009, p. 75; parênteses interpostos, meus).

A liberdade em abstrato, defendida pelo Liberalismo opõe-se à autonomia do professor, expressa na materialidade do sistema único de educação escolar, negativa da dualidade entre formação e educação rebaixada para o trabalhador.

1.2. Imposição

Quando o trabalho é um sacrifício; o professor trabalha para sobreviver.

O trabalhador docente corre de uma escola para a outra, sempre sob a ameaça de perda da integridade física e mental.

1.3. Estranhamento

O estranhamento se expressa no “fato de o produto de seu trabalho não lhe pertencer”. (COSTA, 2009, p. 76) O processo é mais acentuado nas escolas privadas.

Convém, no entanto, não desconsiderar uma singularidade do trabalho do professor, entre os demais trabalhadores: “o conhecimento que o professor organiza e elabora com fins de ensino ninguém pode lhe roubar”. (COSTA, 2009, p. 76) 

1.4. Auto-alienação ou desumanização

Este é o “mais violento de todos os aspectos, pois provoca no trabalhador um retrocesso para uma condição inferior à do animal”. (COSTA, 2009, p. 76)

A situação do trabalhador docente, do professor, chega a uma dramaticidade intensa.

Os seres humanos submetidos à alienação, mesmo vivendo o sofrimento no trabalho, o desgaste físico e mental, a dilapidação moral, ainda assim, permanecem em relações de trabalho destrutivas até esgotarem os limites de suas capacidades ou serem descartados pelo capital. (COSTA, 2009, p. 76; itálicos meus)

Venha a denominar-se dilapidação ou desumanização, trata-se de desbaratar, esbanjar, furtar irreversivelmente, o humano do humano.

2. A desvalorização dos professores

A desvalorização dos professores configura-se, nas conjunturas do neoliberalismo na educação, objetivamente, pela proletarização e suas contradições: fim da missão redentorista e alienação no trabalho. O professor tende a igualar-se à condição proletária, objetiva e subjetivamente.

O magistério é um sacerdócio, na expressão de uma visão metafísica, missionária e redentorista, de conotações religiosas. Na contraposição o trabalho nas condições do capitalismo, em todas as suas implicações; permeado sempre pelas relações entre mercadorias,

As questões polarizam-se entre o trabalho abstrato e as formas da concretização dos usos da força de trabalho; ocorre uma divisão do trabalho; a formação da classe trabalhadora, da classe operária, do proletariado, os desdobramentos do processo de trabalho, no trabalho produtivo e no trabalho improdutivo, mas sempre, o trabalho socialmente necessário, inseparável, no capitalismo, na sua forma específica, da extração de mais-valia, caracterizando-se como exploração, resultante da classe trabalhadora produzir um excedente de valor maior que os seus salários. A extração da mais valia é um dos fundamentos do sistema capitalista.

A transição do feudalismo para o capitalismo permite pensar, socialmente e historicamente, uma transição para o socialismo, quando e onde houvesse a prevalência do trabalho associado sobre o trabalho alienado e submisso aos fins da propriedade privada.

3. Estratégias e táticas de combate

A organização dos docentes em sindicatos e partidos, a participação em eleições e em mobilizações, implica na adoção de uma estratégia classista, revolucionária e socialista, ou na dissipação dos esforços nos marcos do reformismo e do conservadorismo, principalmente das burocracias e da via parlamentar.

A redobrada importância do internacionalismo proletário, além do plano dos princípios, decorre de que o grosso da acumulação capitalista no Brasil segue sendo enviada para o exterior, para as matrizes.

Outra face deste processo de ataques à classe trabalhadora é a criminalização dos movimentos sociais e da pobreza. A transferência de dinheiro público para as grandes empresas, o corte de verbas sociais, especialmente na saúde e na educação, completa o processo.

O governo quer aprovar o Projeto de Lei 549/2010 objetivando congelar os salários dos servidores e reduzir os investimentos na contratação de novos funcionários.

Na política externa, a principal marca do governo Lula foi ter chefiado, desde 2004, a ocupação militar da ONU no Haiti, contando com a colaboração direta das principais direções dos movimentos sociais brasileiros, especialmente as centrais sindicais governistas, como a CUT, Força Sindical, CTB e, a UNE, substituindo a tradição de rebeldia e lutas pela atitude chapa-branca.

Propomos a apresentação de uma plataforma dos trabalhadores, a ruptura com o Imperialismo. Adote o não pagamento da dívida externa e da dívida interna aos grandes investidores. Parta da defesa de uma reforma agrária radical e sob o controle dos trabalhadores, da estatização do sistema financeiro. Combata pelo fim das privatizações e a reestatização das empresas privatizadas, entre outros pontos fundamentais.

A adoção de uma estratégia revolucionária e socialista não é tarefa exclusiva dos partidos políticos que têm esta orientação; a tarefa cabe aos sindicatos, movimentos populares e organizações da juventude.

A construção de formas de combate à alienação e à desvalorização do professor passa pela unificação de todas as lutas: por salário, emprego, moradia, terra, saúde, educação. Contra toda forma de discriminação, de gênero, raça, sexo, de etnia etc., exige a estratégia de construção de uma sociedade sem classes, uma sociedade socialista.

A concepção classista e socialista da luta dos trabalhadores implica em vincular as lutas econômicas à luta política geral contra o capitalismo, uma denuncia permanente deste sistema de exploração e da impossibilidade da classe trabalhadora, e nela, da categoria docente, vir a ter uma vida digna enquanto ele persistir. Não se trata de capricho, mas da natureza do capitalismo em sua fase atual, que não abre espaço para concessões aos trabalhadores, pelo contrário, busca permanente e insistentemente aprofundar cada vez mais a exploração.

Decorre desta visão o entendimento de que a luta sindical não pode se limitar aos horizontes corporativos. As próprias tarefas colocadas questionam a opção corporativa de sindicalismo; por outro lado, não se concebe a omissão dos professores, trabalhadores, primordialmente, na busca de unir os diversos processos de luta de cada categoria em uma ação unificada da classe trabalhadora, objetivos permanentes da atuação sindical.

A independência de classe, a liberdade e a autonomia sindical, a democracia operária, a luta contra a burocratização dos sindicatos, a importância fundamental da organização de base configuram-se em temas permanentes da formação da consciência do professor em combate à alienação e a desvalorização de seu trabalho.

As formas de combate à alienação e à desvalorização dos professores articulam-se dialeticamente às lutas pela unidade do movimento popular da cidade e do campo com o conjunto do movimento operário, contra as opressões às mulheres, aos negros e às negras, contra as opressões aos glbt. Implica em fortalecer a formas de combate da juventude, com ênfase na ANEL, uma alternativa classista de luta e de organização dos estudantes.

(In) conclusões

A situação dos professores na sociedade capitalista, levando em conta os desafios, as obrigações, os limites e as perspectivas, em cumprimento ao proposto na temática do “II Seminário de Estudos Críticos sobre Educação” exige a concepção dos termos educação, alienação e desvalorização dos professores, no interior de uma totalidade.

A crítica, discernimento, discussão dos fundamentos, nos estudos sobre educação, “o próprio educador tem de ser educado” (MARX, 2007, p. 537-538), estabelece a práxis, interpretação e transformação, ou, para finalizar, “desmascarar a auto-alienação humana nas suas formas não sagradas, agora que ela foi (teria sido) desmascarada na forma sagrada”. (MARX, 2005, p. 146; parênteses interpostos, meus)

REFERÊNCIAS

COSTA, Áurea, NETO, Edgard Fernandes & SOUZA Gilberto. A proletarização do professor: neoliberalismo na educação. São Paulo: Instituto José Luís e Rosa Sundermann, 2009.

MARX, Karl. A ideologia alemã: crítica da mais recente filosofia alemã em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus diferentes profetas (1845-1846/Karl Marx, Friedrich Engels). Supervisão editorial Leandro Konder. Tradução Rubens Enderle, Nélio Schneider e Luciano Cavini Martorano. São Paulo: Boitempo, 2007.

MARX, Karl. Crítica da filosofia do direito de Hegel. Tradução Rubens Enderle e Leonardo de Deus. Supervisão e notas Marcelo Backes. São Paulo: Boitempo, 2005.


[i] Texto pronunciado na Mesa Redonda: “Educação, Alienação e Desvalorização dos Professores”, no “II Seminário de Estudos Críticos sobre Educação” Prof Dr Antonio Rodrigues Belon, UFMS/MS, militante sindical ANDES IBILCE – UNESP – SÃO JOSÉ DO RIO PRETO.

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2 Respostas to “Debate 6: As Formas de Combate a Alienação e a Desvalorização dos Professores”

  1. Marcos Says:

    Li por cima e vi aí meu espelho…sou professor… vivo tudo isso…que tragédia…meu peito parece explodir ao falar disso. Que barbaridade é esse que estão fazendo com a profissão!

  2. espacolinguisticouems Says:

    Caro Marcos, como vai? É necessário uma resposta coletiva da categoria, organizada, e principalmente uma reação. Não é sem propósito que a procura pelo magistério está dimuindo cada vez mais. Isolados somos fracos, unidos, fazendo uma revolução. Abraços, Marlon.

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